Amadurece aquele que se descobre e se reinventa.

02/09/2015 07:38

Muitas pessoas consideram na capacidade de cozinhar, lavar, passar e administrar uma casa sozinhas um sinal de amadurecimento.
Não se pode negar que a independência e a autonomia são importantes passos quando se fala em maturidade.
Mas amadurecer é também ter experimentado sofrimento verdadeiro para nos fazer capaz de aumentar diariamente a nossa força e concluir que o otimismo pode até nem sempre ajudar, mas nunca há de atrapalhar.
Amadurece aquele que espera sua vez de falar, que genuinamente se coloca no lugar do outro, que não tem medo de aprender, mudar de opinião, errar e voltar atrás.
Amadurece aquele que passa a viver de olhos e ouvidos bem abertos; que se permite sofrer e se sensibilizar pelas experiências, esvaziar-se para ser capaz de ficar cheio novamente, e que quando transborda, jamais deixa de tentar encher outros copos.
Aprendi o quanto que amadurecer pode nos proporcionar um enriquecimento de vida. Vida assim, dividida, sempre nova, fértil, plena, encantadora, mas na qual, não podemos apagar as cicatrizes da alma, as marcas das experiências ficam, nos construindo.
Antes eu julgava que o coração criava crostas e íamos nos tornando mais resistentes às emoções: mortes não nos causavam tanto assombro, decepções não nos levavam ao chão, as perplexidades diminuíam e a aventura de estar vivo parecia cada vez menos excitante.
É claro que amadurecer nos torna fortes e isto não tem nada haver com a quantidade de anos vividos. Amadurecer tem muitas faces.

Amadurecemos muito com os sofrimentos, as perdas, à distância, a saudade, os diversos “para sempre” e “nunca mais”.
Amadurecer não significa perder o encanto pelas coisas que vivenciamos, mas sim saboreá-los com menos pressa e mais ternura.

Amadurecer não significa perder a vibração e a magia perante o novo, mas vibrarmos numa outra faixa, com mais responsabilidade pelos nossos sentimentos e pelos sentimentos alheios.
Amadurecer é a incrível descoberta de um EU profundo e jovem, novo, sedento de releituras. Isso porque o nosso olhar muda. Passamos a ver a vida sob uma ótica mais amena, menos rigorosa, mais terna e mais valorizadora dos pequenos encantos do cotidiano, antes quase imperceptíveis.
O amadurecimento pode nos vestir em diferentes aspectos: filhos, lutos, rompimentos, crises e descobertas. Toda gama de relações e fatos que nos circundam acenam para essa evolução do eu que assim se redescobre, se desnuda e cresce. Mas este crescer não tem sentido se é um crescer solitário.

Amadurecer/Crescer significa também ramificar e se abrir, expor ao mundo, ao vizinho, ao amigo, ao colega de trabalho a riqueza de nossas experiências. Isso é saber amadurecer junto, trocando, cedendo, doando parte de sua alma ao mundo, que como cada um de nós também amadurece.
Amadurecer não é virar Mamãe e Papai, Vovô e Vovó... Não é repetir atos, padrões, certezas e regras. Amadurecer é se descobrir: limites e potencialidades.

Amadurecer é estar aberto sempre, é ter menos “pé atrás”, é aprender a depositar confiança nas pessoas, pois estas são seres humanos e não armadilhas.

É ir ao encontro do outro menos desarmado já que a vida urge e não viemos ao mundo apenas para guerrear, precisamos também de doçura e de paz.
Amadurecer significa ver encanto nas coisas, mas que mais nos tocam a alma e nos transformam como seres humanos.

Amadurecer é não só aprender com os erros e não repeti-los, mas sobretudo perceber que errar é inerente à natureza humana e, assim, sermos mais flexíveis com os que erram conosco.
Amadurecer então vai muito além do que a descoberta do “eu”, mas também a deliciosa descoberta do “outro”...

E como um dia afirmou Drummond: “Aprendi novas formas de amar e tornei outras mais belas”.
Talvez amadurecer seja exatamente a afirmação da necessidade de descobrirmos, inventarmos novas formas de Amar/conviver/viver.