Conviver, conforme Drummond
Drummond, num lindo poema chamado “O homem; as viagens” (transcrito na íntegra, no final desta minha postagem), criou uma história sobre as viagens espaciais do homem onde vai o colocando na Lua, em Marte, em Júpiter. Até no Sol.
Em cada novo planeta ou em cada astro conquistado, este homem finca a sua bandeirola, civiliza, humaniza e, logo que realiza este feito, perde o encanto, o interesse, o gosto do mistério e da aventura.
E, sabiamente como sempre, o poeta diz que depois de dominar o universo inteiro só restará ao homem a difícil viagem para o interior de si mesmo, pôr os pés no chão do seu coração e descobrir lá a arte e a alegria de saber conviver.
E finaliza o poema, de forma irônica questionando: - “E estará equipado para isso?...”
Realmente, a arte da convivência harmoniosa é muito difícil, a sensibilidade para não ferir, não magoar é cada vez mais rara.
A maioria das pessoas acha-se cheia de direitos e na sua ânsia de defender suas posições, não hesita em agredir, ferir, ofender, frustrar, abandonar aqueles que as querem bem.
Até aceito quando me dizem que não preciso me importar tanto com os outros. Mas acredito que o equilíbrio na discussão, o saber ouvir, dosar o tom de voz, respeitar a individualidade e as limitações dos que nos cercam são sintomas de maturidade que nada têm a ver com a idade cronológica, mas sim com educação.
Nos educamos, para conviver por toda a vida. Passamos a fazer parte de muitos grupos, da vida de muitas pessoas.
Respeito ao ser humano, dignidade, honra, amor, carinho, responsabilidades e dedicação em tudo o que se faz, se aprendem com exemplos.
Pregar verdades e mentir, recomendar respeito às leis e não cumpri-las, difundir honra e não cultivá-la, exigir boa educação e se usar de grosseria acaba com qualquer homem pois esse sim, é preciso conquistar, experimentar, colonizar, civilizar e como diz Drummond, COM-viver.
Leia o poema:
O homem; as viagens
(Carlos Drummond de Andrade)
“O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto - é isto?
Idem
Idem
Idem.
O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.”
