Isso também acontece com você?

03/03/2017 07:18

De repente a gente sente um desajuste, um desconsolo, uma tristeza de não ter nascido em outro tempo, outra época, outro canto da história, noutro lugar.

Aquela hora em que o sentimento chega e senta com a gente um pouquinho, mexe com os nossos sonhos, provoca nossas vontades como quem diz “ahh… se você estivesse lá naquele tempo, naquele lugar…”

Hora é uma vontade de ter nascido em algum lugar do passado, um tempo menos corrido, menos sofrido, hora é uma impressão de que chegamos mais cedo, de que somos de um canto no futuro em que as limitações já não existem, as doenças tiveram fim, os carros ganharam asas, o teletransporte é real, a miséria desapareceu, onde o desrespeito não existe e a desvalorização pelas pessoas e seus sentimentos também não.

Nós (digo nós pois você talvez também possa se sentir assim), os que sentimos ter nascido em época errada, sentimos pelas pessoas um respeito enorme, carinho, zelo, afeto e um amor essencial ao convívio, os quais valorizam sempre o próximo.

Pois é, eu sou desse povo com mania de achar que nasceu no tempo errado. Não é só o passado que mexe com a gente, não! Quem sente ter nascido fora de época também tem saudade do futuro, de um tempo que ainda não veio. Assiste a um filme de ficção e pensa “puxa, vida… imagine o que vai ser quando inventarem o teletransporte?”. É assim que é. A gente sonha. Sonha com os dias que não são os nossos, sonha com dias melhores sempre.

Sonha porque tem a impressão de pertencer a outro tempo, não a este agora insano, este pega-pra-capar, este mato-sem-cachorro, este baile de máscaras, esta briga sem sentido. A gente sonha porque sente ser de outro lugar. Porque sofre esse desajuste, esse gosto margo, essa impressão de que está na época errada.

Chamem a isso como quiserem. Desencanto, insatisfação, desconsolo com os dias que correm, com a falta de modos e educação, a escassez de valores, a falta de gentileza, a solidariedade esmagada sob os pés da multidão arisca. Não importa. A gente sente que nasceu na hora errada e isso nem sempre se explica.

Mal sabemos nós que não há erro nenhum, que as coisas são assim mesmo. Que não há tempo errado, só há o tempo e ele será sempre um infinito e certeiro agora. Sequer desconfiamos de que o passado remoto ou o futuro distante só existem porque os levamos no coração com carinho, preservando nossos valores. Mas não tem jeito. Ainda que soubéssemos de tudo, ainda que não houvesse mais do que suspeitar, seguiríamos achando que nosso tempo é outro.

Nós, que sentimos saudade do que não vivemos, sequer desconfiamos de que essas horas seguirão vivas para sempre, a despeito do tempo e das convenções ditadas pela sociedade e vamos continuar em frente, se Deus quiser, acreditando nas pessoas que conseguirão conviver de forma humana.